sexta-feira, 30 de setembro de 2011

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

beber a música - fátima meireles

basta-me ir ao coração dos cisnes beber a música que me atravessa o corpo - & alimentar-me das cerejas maduras na tua boca

Alguém me dá a mão? - cleide guedes

Mãos abertas,
Às vezes postas.
Mãos entrelaçadas.
Mãos que acariciam, mãos dadas.
Mãos que seguram,
Mãos fechadas.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

amadrinhamento

desde já seja benvindo
os cupidos acertaram as flechas
eros não erra
a "doença" instalou-se
dizem que não há cura
e que também não é
pura é para
a união dos poetas
deuses e deusas da vida
trabalharam o encontro
na recepção > afrodite
produção do evento > dionísius
música > pan
recadinhos > mercúrio
deus, zeus, alá e ateus
marcaram presença
zen disse que vem
vips > jesus, buda, gandhi, lilith e os orixás
além de espíritos livres
em geral de corpo presente
(entidades boas receberam o aviso,
incluindo alguns demônios, santos e anjos)
não-vips > amigos humanos demasiado humanos
poemas de amor escandalosamente exibidos no céu
doidos > os próprios

pecado

perdão
pecado de
palavra.
pecado
perdoado.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

fátima meireles

A tarde deita-se terna no crepúsculo
e eu tenho colinas em meu corpo para que tu deites nelas
para eu ser túnel de esplêndida luz em que entras
corpo denso em descoberta na terra mais funda de nós
já não fogem os pássaros nem a hora resiste à viagem
nos copos ébrios da boca e do peito onde a sede eterna não se dissipa
em quantos corpos me amaste?
em quantos ruas me perdeste
e quantas bocas me beijaste?
em que horizonte me procuraste?
sou herdeira do sol mais ardente
do súbito regresso a casa
da vida recém –nascida em que me alimento

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

meteoritos (ou migalhas do pão universal) - leonard almeida


entre um salto quântico e a dança no vácuo
sob o maior silêncio já encontrado
entre asteróides bêbados e satélites estressados
atravessei a Milky Way sem olhar o semáforo
atrasado para ver o parto daquela nova estrela
que já chegou ao quarto
crescente, nos braços e seios de uma nebulosa
mãe-constelação acolhedora e radiosa

*

se somos feitos de cordas
segundo a teoria
ainda sou violão desafinado
tocando acordes dissonantes
serei ainda uma guitarra Gibson
em voos-solos cortantes?

a vida seria então uma partitura
cheia de escalas e lacunas
notas e cifras complexas, indeterminadas
uma sinfonia cósmica inacabada, eterna
e regida por um maestro sem batuta?

*

outros físicos dizem que além de cordas
o cosmos tem membranas
multiversos flutuantes, multidimensões entrepostas
cada membrana é um universo
cada universo um objeto orgânico de mesma substância
cada universo é como um pão
de massas e sabores diferentes
num café da manhã estelar
e em cada fatia, uma dimensão existente
não há dentro ou fora, miolo ou casca
seriam os deuses astronautas
tomando pingado numa padoca cósmica?

*

teorias e relatividades à parte
senhores Copérnico, Galileu, Newton, Einstein
da metafísica à física quântica
me importa mais a quantidade de gravidade
na dinâmica e mecânica dos corpos carnais aos celestes
quantos gravitons e magnétons são necessários
para que dois leigos se atraiam
e ocupem por um momento o mesmo espaço-tempo
e caiam, vertiginosos como meteoros
mas amortecidos por uma cama desavisada?

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

norte

situa-se para não perder o norte
que o sul já vai indo em direção a si
porém ponha os pés no chão
se quiseres perder a cabeça
em sono tranquilo em lugares
sem leste/oeste

ilustração: ballet vintage

sábado, 17 de setembro de 2011

vozes clandestinas - maria andersen

Restolhar as vozes clandestinas
e teimar
teimar
teimar
até que o vento rasgue todo o ângulo podre e periférico - toda a noite - toda a morte

o poeta é sempre um clandestino que grita para o centro – num único sentido – a clareira 

quimeras

quimeras que eram delas
que belas que eram elas

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

xana

os nomes que te chamam
teu nome é tão lindo
chamas

a tribo cresceu

atingimos o status de indivíduo em contraposição ao
coletivo há muito...........muito tempo
à partir daí, começamos a nos preocupar com os outros indivíduos, para não prejudicarem o coletivo
que tanto prejudica o indivíduo.
resultado: a tribo cresceu...
 
" o homem que nesta terra miserável mora entre feras sente inevitável necessidade de também ser fera " A.A.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

trabalho

o trabalho diminui
à medida que a pessoa cresce
aumenta o trabalho

TRABALHAR NÃO É COISA DE CRIANÇA!

terça-feira, 13 de setembro de 2011

doutor, eu não me engano...

um gole de cerveja
para o raciocínio
uma atitude certa
para o equilíbrio
Sócrates Brasileiro, com este nome até Platão tem inveja de ti, com este calcanhar você foi Mercúrio nos olhos dos outros, com a tua sinceridade você incomoda os politicamente corretos, com esta camisa você foi você, com a tua recuperação contamos todos nós...um bando de loucos!

à manoel de barros

tordo voa
todo ele

pílulas do tipo deixa o pau rolar - torquato neto


denot.gif (851 bytes) Primeiro passo é tomar conta do espaço.
    Tem espaço a bessa e só 
    você sabe o que o que pode fazer do seu.
    Antes ocupe. Depois se vire.
 
denot.gif (851 bytes) Não se esqueça de que você está
    cercado, olhe em volta e dê um rolê.
    Cuidado com as imitações.

denot.gif (851 bytes) Imagine o verão em chamas e fique
    sabendo que é por isso mesmo.
    A hora do crime precede a hora da
    vingança, e o espetáculo continua.
    cada um na sua, silêncio.

denot.gif (851 bytes) Acredite na realidade e procure
    as brechas que ela sempre deixa.
    Leia o jornal, não tenha medo de
    mim, fique sabendo: drenagem, dragas
    e tratores pelo pântano. Acredite.

denot.gif (851 bytes) Poesia. Acredite na poesia e viva.
    E viva ela. Morra por ela se você
    se liga, mas por favor, não traia.
    O poeta que trai sua poesia é um
    infeliz completo e morto.
    Resista,  criatura.
 
 
Torquato Neto, mestre querido, poeta total, suicidado nos anos 70, é com prazer que te releio!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

madrugosa - claudia freire



seres subterrâneos
subindo à superfície
lanterna em punho tinindo
é fungo, é broca, é ganido

ratos humanos sicranos
concretados no devaneio
é olho vidrado é espelho
nódoa de piche é pupila

supérfluo ser derramado
vulto pálido fantasmagórico
concreta a alma urbana
no vácuo o grito colérico

cérebro desperdiçado
neurônio desparafusado
abstrata a dor da peçonha
é cobra, é carma, é latido

coroa de espinho torto
mártir desmiolado
tíbias esmigalhadas
é prego, é cruz, é culpado

pensa, prensa o maluco
três por quatro, flash, digitais
volta pro fundo do poço
de onde jamais sairás

ofusca o tosco delírio
sinalização de fumaça
bebendo lodo em goteira
é giz, é um triz, é colírio

salpica estrela vaidosa
inseto de gala engomado
glamour de asfalto, cidade
é tudo, é onde, é saudade

domingo, 4 de setembro de 2011

cuidado

quem disse que quero ficar
longe das asas
das saias dos seios?

aqui não há receio
cuidem da caça
cuido das caçadas
e por elas sou
cuidado

olhar - dionísius fontes

uso teu luso olhar
com esperança
no encontrar

meu eu
consigo mesmo
na direção
do teu desejo

mistério insondável - maria andersen


    • Algo de enorme nasce a cada instante
      segue por aí - abrindo-te aos cumes mais ardentes
      assim sobes ao sublime silêncio
      a pensar o sentido íntimo das coisas dos gestos da vida
      o único sentido
      ? sem isso de que nos serve o sucessivo quadro das imagens externas
      ah
      por vezes somos uma sombra adormecida chamada gente
      & nem percebemos que o mundo segue
      sem mim sem ti
      mas não sem nós –
      primeiro é o olhar
      depois a surpresa – a vida
      depois o mistério insondável onde existimos
      assim suspiramos sabendo apenas a insuspeitável dimensão sem calculo

      podia dizer-te tantas coisas
      ir ao fundo de ti e não voltar
      agora estou a florir na substância do dia
      & deito-me com todos os sentimentos à porta das emoções
      & todas as sensações me pagam a ébria bebida de te querer mais do que posso
      troco olhares com todos os teus e os meus modos de agir
      & estou de mãos dadas com todos os impulsos
      para ir à febre as horas

      ah fome insaciável de ser
      orgia intelectual de sentir a vida o talento a virtude
      o corpo ( o meu e o teu) a ferro e fogo
      diálogo contínuo dos meus olhos nos teus
      sim
      o silêncio diz tanto
      & o grito vem de tão longe

      podia dizer-te mais
      queria dizer-te mais
      mas tudo o mais que te dissesse não te diria
      o tanto que te quero dizer

      a vida dói quanto mais dentro se vive
      & o tempo é tão precário
      sim podia dizer-te mais
      mas tudo o mais que te diga - não diz tudo

      a vida é em nós
      esta única sensação de ser

escapa - assíria

...e sua boca
é esta minha escrita
que se me escapa dos lábios
ardendo p'la ponta de meus olhos...